Existe um peso que poucos percebem, um fardo que carrego na quietude dos meus dias. É como se eu estivesse num constante estado de espera, uma transição que nunca se completa. Já não sou mais jovem, mas também não sou aquilo que esperava ser quando jovem. Sinto-me como uma página meio virada, presa entre o que fui e o que deveria ser. Estudo ainda, quase no fim de uma longa jornada que começou com tanto entusiasmo. Agora, as palavras dos livros são como areia escorrendo entre os dedos; seguras por um momento, mas logo dispersas ao vento. Essa busca pelo saber que deveria trazer sentido se torna uma corrida de resistência, onde o cansaço parece ganhar cada vez mais espaço. O apego, por sua vez, é um abismo que observo à distância. É estranho querer tanto a segurança de um abraço, mas temer o momento em que ele se torna uma grade ao redor do coração. É sempre um passo para frente e dois para trás. E há aqueles que pintam quadros de horizontes possíveis, só para apagar os caminhos no momento em que os perseguimos. Promessas vazias, ofertas em trajes de gala que se desmancham diante dos olhos atentos. Cada desilusão é um lembrete silencioso de que meu destino é navegar sozinho por mares tempestuosos, na esperança de encontrar uma costa segura, um dia.