Eu acordo e já sinto o peso do dia que nem começou. É como se houvesse uma cobrança silenciosa, um débito invisível que nunca diminui. Se ouso parar e respirar, já estou atrasado. É sempre algo a mais e nunca o suficiente. As expectativas, as decisões, os compromissos — bombas-relógio sorrateiras todas explodindo ao mesmo tempo. A vida é esse estoque interminável de tarefas, obrigações que ninguém reconhece até você falhar. E então vem a questão do desejo. O que diabos eu realmente quero? Perdi a conta das vezes que me perguntei isso e não tive resposta. É frustrante viver nesse limbo entre o desejo e a obrigação, entre o que eu poderia ser e o que me torno todos os dias. A dura verdade é que aprendi mais levando rasteiras do que qualquer diploma pendurado na parede poderia ensinar. O pior é a sensação de estar sempre em falta. Falta com os outros, falta comigo. É um ciclo vicioso que parece não ter fim. O tempo, esse canalha escorregadio, só ora e ora, e eu pareço sempre dez passos atrás. Vai ver, no fundo, minha revolta é só contra mim mesmo, mas quem tem coragem de admitir isso? No fim das contas, sigo em frente, sobrecarregado, oscilando entre a revolta e a aceitação. Ah, a doce prisão da vida adulta.