É estranho, não é? Viver assim, como se cada dia fosse uma repetição pálida do anterior. Não sinto mais a diferença entre segunda e sexta. O final de semana só parece uma continuação dos dias intermináveis. O tempo virou um borrão cinza, e eu me pergunto quando foi que deixei de notar as cores ao meu redor. Eu finjo bem. A cada dia, visto o sorriso como se fosse um uniforme, um código obrigatório que me mantém operante entre os outros. Talvez seja isso. Um ator num palco sem aplausos, recitando falas que já não fazem sentido. E no fim do dia, quando as luzes se apagam, só resta o silêncio. Um silêncio que grita. Há uma inquietação persistente, como se houvesse algo errado que não consigo nomear, uma peça faltando num quebra-cabeça desfigurado. E nem adianta tentar montar. Estou tão habituado a esconder tudo que até eu mesmo me perdi na bagunça que sou. Tento me encontrar em lembranças, mas elas só confirmam a distância entre quem fui e quem sou. Sabotagem é o nome do jogo. Exigências que jamais alcanço, sabotagens disfarçadas de medo e desculpas. Uma dança solitária de adequação forçada. E enquanto tudo se desmorona, mantenho a pose, porque admitir cansa mais do que fingir. Aqui estamos. Outra noite, mesma escuridão. Amanhã? Talvez.