Acordar cedo e não ter para onde ir. A cidade gira, mas o meu mundo está parado. Viver entre quatro paredes, assistindo ao tempo escorrer entre os dedos como areia. Dizem que é preciso ter paciência, mas até isso anda me escapando. O telefone não toca, as portas não se abrem. O eco das promessas não cumpridas soa alto demais na minha cabeça. Tentam me convencer que é só uma fase, que tudo vai se ajustar. Mas, enquanto estou aqui, esperando pelo improvável, carrego esse vazio que pesa mais do que qualquer coisa. Vejo pessoas sorrindo, corpos entrelaçados, e me sinto um estrangeiro no meu próprio território. Quero companhia, mas não sei mais se consigo lidar com o peso de mais uma decepção. Ser educado é um fardo quando tudo que se consegue em troca é migalha. O orgulho me impede de aceitar o pouco que me oferecem, mas o desespero quase me faz engolir o que restou da dignidade. Paro e olho em volta. Respiro fundo, mas o ar não preenche. Sobrevivo, mas isso é muito distante de viver. A revolta ferve, mas a ação se perde em planos que não se concretizam. Enquanto isso, sou apenas um passageiro nesse trem desgovernado chamado vida, tentando não descarrilar.