Hoje acordei com a sensação de que sou uma biblioteca cheia de livros que ninguém lê. Conheço tantas coisas, mas é como se vivesse em um cômodo escuro, onde cada prateleira é um compromisso invisível, uma responsabilidade que nunca chega a se concretizar aos olhos dos outros. As pessoas veem apenas as estantes vazias, sem se dar conta do peso dos volumes que carrego. É opressor, sabe? Há tanto dentro de mim, uma coleção de histórias não contadas, de sonhos que nunca saíram do papel. Às vezes parece que estou preso numa trama sem enredo, onde os capítulos passam sem que eu possa virá-las. Tento me convencer que há beleza nos rascunhos, nas entrelinhas, no espaço entre uma página e outra onde a esperança se esconde sorrateira, sussurrando promessas de que um dia eu serei mais do que apenas um acúmulo de ideias e dilemas sem resposta. A esperança é essa chama contida, teimosa, que não se apaga mesmo quando a ventania das dúvidas sopra mais forte. Talvez eu não tenha encontrado o caminho certo, talvez eu simplesmente ainda não tenha enxergado a saída desse labirinto interno. Mas, por enquanto, vivo com a certeza de que essa esperança mora dentro de mim, adormecida, à espera de um instante, um gesto, uma leitura de compreensão que possa, finalmente, acender a luz nas prateleiras da minha mente.