Às vezes me pego olhando para o espelho, buscando por algo que ainda não sei nomear. Vejo reflexos de sonhos não vividos, de promessas que fiz a mim mesmo e que se perderam no vento. Carrego nos ombros a estranha sensação de que o tempo passou, e eu fiquei parado. Como um livro esquecido numa estante empoeirada. A cada dia que amanhece, sinto a expectativa de que algo será diferente, que finalmente vou me mover, mas o medo me puxa de volta. A dúvida se infiltra, lenta e persistente, como água que escorre pelas rachaduras da mente. E me pergunto: como cheguei aqui, nesse lugar de incertezas e silêncios? Talvez a vida tenha tentado me ensinar algo enquanto eu estava ocupado fugindo. Talvez a culpa seja minha, de construir muralhas onde deveria haver pontes. A solidão é uma companheira antiga, um abraço apertado demais que às vezes sufoca. Mas, entre o desalento e a esperança, há uma breve pausa. Um vislumbre do amanhã que me diz que ainda estou aqui, respirando. E é nessa pausa que ouço um sussurro: "Ainda há tempo". E nisso, mesmo que pequeno, há um lampejo de coragem, uma fagulha de vida que se recusa a apagar. Caminho hesitante, mas caminho. Afinal, esperar ainda é viver, mesmo que aos trancos, mesmo que de olhos fechados.