Às vezes, penso que o universo se diverte jogando responsabilidades sobre mim, pintando um alvo invisível nas minhas costas. Existe um cansaço profundo em ser o sempre disponível, o que resolve, o que escuta. É como se eu carregasse o peso do mundo enquanto o mundo lá fora gira indiferente. E eu me pergunto: quem realmente me vê? Há um momento, uma pausa interminável entre um suspiro e outro, em que tudo parece claro, mas essa clareza é uma faca de dois gumes. Enxergar além do que mostram as aparências invoca uma solidão que sangra lentamente. Gritar seria um alívio, mas quem escuta? O grito fica preso na garganta, sufocado pelas expectativas e pela decepção. Amar demais foi como um golpe de misericórdia. Ser vulnerável e ter essa vulnerabilidade jogada no rosto é um soco que ainda ecoa dentro de mim. Aprendi a construir muralhas, não por escolha, mas por necessidade. O amor revelou-se uma moeda de troca cruel, e agora receio qualquer toque, qualquer promessa. O conhecimento, esse tesouro prometido, tornou-se uma pedra fria. Quanto mais estudo, mais crítico me torno, e o que vejo não me agrada. Tudo parece superficial, um espetáculo vazio onde todos aplaudem, mas ninguém sente. Estou farto de máscaras, de verdades prontas e meia luz. Escrevo não por esperança, mas por um desejo de expurgar. Que essas palavras perdidas no vento carreguem um pouco desse fardo que se recusa a me deixar.