Às vezes sinto que a vida é um palco e eu, a piada. Os dias passam, eu empurro com a barriga, finjo que está tudo bem, enquanto grito por dentro. Estudei, estudei muito, mas para quê? Para me tornar um peão de escritório, emparedado entre quatro paredes estéreis, sem espaço pra criatividade, pra paixão? Me disseram que o conhecimento seria minha salvação. Ha! Só vejo meu diploma empoeirando, enquanto me afundo em tarefas medíocres que sugam minha alma. O que é mais frustrante é a expectativa. Todos pensam que sou bem-sucedido, que alcancei algo na vida. Mal sabem eles que a única coisa que alcancei foi o fundo de uma garrafa nos fins de semana. Porque, bem, pelo menos o álcool não mente. Ele me diz a verdade que eu não quero ouvir: que estou perdido, que tudo que fiz foi me conformar, que não sou nada além de um fantoche dançando conforme a música dos outros. Sinto que estou vivendo em piloto automático, um robô programado para acenar, para sorrir, para não sentir. E estou cansado, tão cansado de me esconder, de fingir que não há um vulcão pronto para explodir. Escrever é a única válvula de escape que me resta. Aqui, pelo menos, posso ser honesto. Aqui, posso admitir que me sinto uma fraude no meio desse circo absurdo que chamam de vida.