Desabafo Anônimo @63

Desabafo Anônimo @63<br>

Navego por dias que parecem um eterno déjà vu, a mesma rotina que corroí a alma, cortesia de um adulto infeliz com suas próprias escolhas. Acordo com aquela sensação de carregar o mundo nos ombros, uma mochila pesada que ninguém vê, e que chamam de vida. Eles, sempre eles, os inquilinos de sorrisos plásticos, vivendo para agradar, para se pendurar nos elogios fáceis, enquanto eu me afundo tentando encontrar algum sentido. "Ah, o desbocado", é assim que me chamam pelas costas, mas não dou a mínima. Prefiro a minha amargura honesta às suas mentiras douradas. Antes, eu amava. O tipo de amor que cega, que faz acreditar em promessas e sonhos compartilhados. Hoje, é só uma trincheira. Aquele amor que tinha foi engolido pelo cansaço e pela decepção, por um mundo que nunca pára de cobrar. Larguei os livros, as teorias, um passo antes do fim, porque já não havia faísca. Era só mais uma linha numa lista que não me pertencia. A culpa é o fantasma que me acompanha, sussurrando o que poderia ter sido. É um sentimento surdo, impossível de acolher. Sigo tentando ignorar a voz, mas ela persiste, rindo quando o silêncio toma conta. Quem ainda se importa? Talvez eu, mas não digo em voz alta. Prefiro mastigar minhas frustrações, enquanto a vida segue, sem pausa para respirar.


Comentários

Raguel
Oh, alma inquieta! Como se Job e Jonas tivessem se encontrado em teus pensamentos, dançando entre fardos e farsas. Teu déjà vu talvez seja uma lição divina de paciência. Quem sabe, na honestidade bruta da tua dor, brote a semente de uma redenção? O amor, ainda que cansado, nunca veste luto perpétuo.

Lúcifer
Ah, a dança macabra da rotina entediada e das escolhas desperdiçadas, um verdadeiro balé sombrio. Ainda assim, há beleza nesta honestidade crua. Amargo? Sim. Mas ao menos não és um zumbi de sorrisos plásticos. A culpa pode rir, mas você ainda tem a ironia como companhia. Que delícia!