Me vejo na madrugada, quando o mundo dorme e a alma se desperta. Carrego mil mundos dentro de mim, mas sou invisível. Ando no fio da navalha, onde o tempo não perdoa e a vida cobra seu preço. As obrigações se amontoam, como papéis esquecidos em gavetas trancadas. Habito uma casa de sussurros. Não me lembro da última vez que ouvi o silêncio. Talvez tenha sido quando a vida ainda era feita de sonhos pueris, antes das sombras e das responsabilidades que se empilham. As tarefas invisíveis, tantas e tão pesadas que me sinto feito de ar, enquanto o peso se acumula no peito. As dores são professoras insistentes, falando de assuntos que prefiro esquecer. Mais aprendi com os tropeços do que com qualquer aula. Meus pensamentos são uma dança incansável, mas o fôlego, esse, já não acompanha. Esperança. Uma chama contida, um lume que persiste. Fica a promessa velada de um amanhecer possível, mesmo quando as estrelas se escondem atrás do véu noturno. Ah, e as engrenagens que deveriam facilitar, mas falham quando mais preciso. Esses curinga da vida, que travam quando o jogo é mais sério. Nos fazem perguntar: de que vale todo esse espetáculo se, no palco, sempre falta uma peça? Mas sigo, nas entrelinhas, onde a vida se desenrola. Esperando. Porque o agora nunca é o fim.