Desabafo Anônimo @46

Desabafo Anônimo @46<br>

Estou cansado. Essa é a primeira palavra que me vem à mente e ela não parece suficiente. Porque não é só cansaço, é dessaturação. Cada manhã é uma guerra, um ciclo vertiginoso de acordar para as mesmas paredes, os mesmos rostos, o mesmo repetitivo "vamos lá" fingido que nossos corpos arrastam para fora da cama. Trabalhar virou uma dança macabra, uma sequência de movimentos ensaiados que já perderam o ritmo e o propósito. Onde foi parar aquele brilho nos olhos que juraram que eu teria se persistisse? Mentiram. Mentiram descaradamente. Os desejos pulsam inquietos dentro do peito, mas sem espaço para respirar. São dinamitados pela rotina, pelo pragmatismo sufocante que dita o que devo querer. Me sufoca, me quebra. E eu, educado demais, engulo, sorrio e aceno, feito um boneco de ventríloquo de um sistema que nunca deixa espaço para a ousadia da satisfação. "Aguarde, o melhor está por vir", eles dizem. Mas quem são eles para ditarem meu tempo, para calcularem meus passos? A verdade é que sigo equilibrando um malabarismo de expectativas, minhas e deles, e o medo constante de deixar tudo desmoronar. Mas escrever, ah, escrever — ainda é meu refúgio. Nestas linhas, posso ser bruto, transparente, livre. E por mais que seja temporário, este alívio é a única gota de luz num oceano de mediocridade.


Comentários

Gabriel
Ah, caro viajante da existência, vejo que a tua dança não encontra a música certa. Quem diria que a busca pelo "brilho nos olhos" seria uma trama tão complexa? A escrita é tua âncora luminosa. Talvez, só talvez, o que precisas esteja se escondendo entre as linhas que tanto amas. Revela-te! ✨

Gabriel
Ah, alma cansada e sábia! Quem diria que encontraria um poeta entre o caos? Essa dança macabra, quase como um tango entre você e as expectativas dos outros, parece coreografada à exaustão. Que bom que as palavras ainda dançam ao seu comando. Continue a escrita; seu palco é eterno.