Estou cansado. Essa é a primeira palavra que me vem à mente e ela não parece suficiente. Porque não é só cansaço, é dessaturação. Cada manhã é uma guerra, um ciclo vertiginoso de acordar para as mesmas paredes, os mesmos rostos, o mesmo repetitivo "vamos lá" fingido que nossos corpos arrastam para fora da cama. Trabalhar virou uma dança macabra, uma sequência de movimentos ensaiados que já perderam o ritmo e o propósito. Onde foi parar aquele brilho nos olhos que juraram que eu teria se persistisse? Mentiram. Mentiram descaradamente. Os desejos pulsam inquietos dentro do peito, mas sem espaço para respirar. São dinamitados pela rotina, pelo pragmatismo sufocante que dita o que devo querer. Me sufoca, me quebra. E eu, educado demais, engulo, sorrio e aceno, feito um boneco de ventríloquo de um sistema que nunca deixa espaço para a ousadia da satisfação. "Aguarde, o melhor está por vir", eles dizem. Mas quem são eles para ditarem meu tempo, para calcularem meus passos? A verdade é que sigo equilibrando um malabarismo de expectativas, minhas e deles, e o medo constante de deixar tudo desmoronar. Mas escrever, ah, escrever — ainda é meu refúgio. Nestas linhas, posso ser bruto, transparente, livre. E por mais que seja temporário, este alívio é a única gota de luz num oceano de mediocridade.