De vez em quando ouço uma música chamada somewhere only we know porque me faz lembrar de uma amiga que tive. Eu a conheci quando eu estava no último ano do ensino médio, andando pelas ruas. Ela morava tão perto, mas eu nunca a tinha visto. Descobri que ela estava passando por um tempo difícil e eu tentei ajudá-la passeando com ela pelas redondezas, ouvi ela e disse que ela ia ficar bem… mas ela estava afundada em sua tristeza.
Depois disso ficamos amigos, ela batia na minha porta e eu ia andar com ela até a sorveteria, comprávamos sorvete e voltávamos conversando. Eu, imaturo demais, acabei a deixando ir.
Na época, pensei em tentar algo, mas talvez, no fundo, eu quisesse alguém com uma beleza mais “padrão”, apesar de, sinceramente, ela ser bonita, eu sempre tive outras opções e ela não fazia parte dessas. Não era muito meu tipo, na aparência e na humildade que ela vivia, por puro gosto. Mesmo eu não querendo admitir isso, no fundo sei que tudo isso que contou muito para eu não agir, eu vivia cheio de contatos de meninas da alta sociedade. Fui um idiota.
Nossa amizade era tão pura, tão profunda. Até hoje não sei ao certo se eu gostava dela, não sei como seria gostar de alguém, também não sei se ela chegou a gostar de mim. Só sei que queria ter aproveitado mais a companhia dela. Conversei ao acaso com uma amiga em comum que me contou alguns detalhes tão bonitos… me emocionei ao saber
Ela disse que minha amiga organizava os estudos durante a semana para conseguir sair mais cedo, pelo menos em um dia, só para me ver. Naquele tempo ela estudava para o vestibular; queria odontologia, e aqui a nota na pública é muito alta. O cursinho era rigoroso demais. Às vezes, a monitora dela ficava triste porque queria que ela passasse, mas ela sempre se atrasava, lutando contra a depressão. Ainda assim, mesmo já atrasada, ela se arriscava mais: deixava de estudar algumas horas só para passear comigo pelas ruas. A amiga me contou que, quando ela batia na minha porta, nunca sabia se eu atenderia, mas mesmo assim largava tudo para tentar estar comigo.
Morávamos a uma rua de distância, mas nem sempre eu a atendia. Eu sempre fui um pouco confuso. Às vezes ríamos, às vezes ela chorava, chorava copiosamente, às vezes não dizíamos nada, conversávamos sobre a vida, sobre Deus, sobre o tempo. Eu notava como ela descuidava de si, como ela estava tão devastada.
Ela estava mal, mas ouso dizer que se sentia bem comigo, naquela brisa fria, naquele pôr do sol, com aqueles sorvetes. E, de algum jeito, eu também me sentia em paz com ela ali, comendo sorvete enquanto o dia sumia e a noite caía devagar. Em alguns momentos eu queria a abraçar e dizer que tudo ia ficar bem, mas eu a respeitava, ela é muito, muito católica e não sabia se ela ia gostar. Nunca consegui esquecer a sensação de apreciar somente a companhia um do outro em um lugar tão simples, fazendo algo tão simples.
Mal sabia eu que ela me fazia mais bem do que eu a ela. Tão profunda, tão melancólica, tão inteligente, tão introspectiva, tão amiga. Mas eu fiz minha escolha. Chegou um tempo em que ela não me procurou mais, mesmo ainda morando aqui, talvez porque eu não a atendia sempre. E eu também nunca mais a procurei.
Espero que esteja bem, que se cure, que saia dessa angústia que eu via em seus olhos, cansados de lutar para estar bem. Soube também que ainda luta contra a depressão, mas já está na universidade. As vezes olho o insta dela e meu coração gela pq ela pode ter postado foto com alguém, ela não colocou nem que foi aprovada, ela nunca posta nada. Já eu, faço veterinária agora.
A vida mudou. Não somos mais tão jovens, não nos vimos mais. Ainda assim, às vezes, volto a andar pelas ruas e fico com a impressão de que, se eu dobrasse a esquina, poderia encontrá-la saindo de casa e que ela abriria um sorriso ao me ver, conversaríamos uma última vez e eu daria o abraço apertado que tanto guardei.
Mas, o triste é que ela passou em odontologia em outra cidade e se mudou com os pais, me despedacei ao notar que ela não se despediu. Ela não se despediu de mim. Ela não veio se despedir de mim... E tenho que ficar com a memória da última vez que andamos juntos.
O tempo passou e andando por aí, sentindo a mesma brisa, começo a cantarolar essa música e lembro da sensação de estar com ela, mas o por do sol não parece ser o mesmo, que nostalgia.
Essas ruas guardam memórias… e são um lugar que, no fundo, só nós dois conhecemos. Mas, bem, para não ser hipócrita, não sei se ficaríamos juntos, porque, como disse, mesmo ela sendo bonita, meu ciclo de amizade é muito superficial, eu sou superficial. E eu queria a amar como ela merece. Admito isso sabendo que é um erro, mas não sou como ela.
Ah, doce amiga, como penso em você... Será que ela pensa em mim as vezes? Será que ainda lembra de como se sentia comigo? Será que alguém já fez ela sorrir? Será que alguém falou uma piada enquanto esperava ela fazer um coque com seus cachinhos, para não sentir tanto calor? Será que ela ainda gosta de ficar na calçada vendo os cachorros passarem? E se alguém estiver acompanhando ela nesse hobbie agora? Será que ela nesse tempo todo sentiu saudades à noite, como estou sentindo agora?
Sou complicado demais. A vida é complicada. Se eu pudesse dar uma dica a vocês, procurem quem vocês amam enquanto é tempo e não sejam tão superficiais como eu, a vida se torna um amargor. Tenho a impressão que ela, com toda tristeza, conseguia enxergar as pessoas com mais delicadeza do que eu, ela via o simples e o interior das pessoas, era tão pura, tão dócil, tão inocente. Minha grande amiga, nunca esquecerei você, espero que me perdoe e que tenha um carinho por mim.