Há uma quietude que só o passar do tempo ensina. Não é paz, mas um silêncio cansado que se instala depois de muitas batalhas travadas com o mundo e, sobretudo, consigo mesmo. Não era para ser assim, sussurra uma voz em algum canto da mente, mas não consigo lembrar exatamente como "assim" deveria ser. As promessas que fiz a mim mesmo, lá atrás, parecem fragmentos de um sonho desbotado. O que restou de tudo isso sou eu, aqui, entre papéis que não preenchem mais do que o espaço no tempo. Há uma sensação de estar sempre em descompasso, como se a dança da vida tivesse um ritmo ao qual nunca me adaptei. As escolhas que fiz, ou aquelas que deixei de fazer, sussurram arrependimentos em noites insones. A culpa é uma velha companheira, aquela que se insinua nas entrelinhas dos dias comuns, lembrando-me dos laços que desfiz com minhas próprias mãos. Amar já foi mais fácil. Mas, com o tempo, ergui muros onde antes havia pontes. O medo de sentir de novo a dor do abandono construiu uma fortaleza de solidão. Auto-sabotagem é um nome bonito para chamar o medo de tentar e de falhar, novamente. Eu me pergunto o que resta a alguém cansado de lutar contra si mesmo. Talvez só as palavras, uma tentativa final de encontrar algum sentido nesse emaranhado confuso que insisto em chamar de vida.