Eu cresci rápido, sem tempo pra brincar de bonecos ou sonhar alto demais. A vida me botou na linha de frente, com fatura pra pagar antes mesmo de entender o preço das coisas. Fiz o que pude, mas sempre ficou aquela sensação de nunca ser o bastante, sabe? Tipo carregar um peso que não é meu, mas ninguém mais levantou a mão pra ajudar. Trabalho, ralo, aceito menos. Porque essa é a prateleira que me colocaram, onde “bom o bastante” é sempre um degrau acima. Me disseram que com esforço tudo se ajeita, mas omitem que a escada não tem fim. E eu subo, sem ânimo, sem brilho nos olhos. Subo porque é o que faço, o que sei. Vergonha. Daquelas que machuca, que faz querer sumir na multidão. Não gosto do reflexo, não reconheço o que ele me acusa. Sou o inimigo, o saboteur da minha própria história. Não sei fugir desse ciclo, dessa dança macabra de autodestruição mascarada de sobrevivência. Abandonado, largado à própria sorte. Mas quem pode culpar outros quando você mesmo aperta o gatilho? Essa culpa mal resolvida, que sussurra na calada da noite, não me deixa em paz. Um lembrete constante de que não importa o quanto eu tente, a sensação de estar em débito nunca me larga. É isso. Sou eu, o eterno devedor de mim mesmo.