Sinto que sou uma carcaça ambulante, vazia, mas cheia de estilhaços das escolhas que fiz. O relógio continua a girar, indiferente ao meu cansaço. Eu me arrasto pelos dias, enfurnado nesse ciclo miserável que me engole sem dó. O trabalho, antes um campo de batalha que eu encarava com fervor, virou uma prisão que me asfixia. O brilho nos olhos? Apagou-se, deixando um rastro de cinzas, e nelas, me reviro. Onde foi parar o fogo que me movia? Talvez enterrado sob décadas de expectativas e decisões que, quando olho agora, parecem de um estranho. O que faço é esboçar sorrisos enquanto meu cérebro implora por um descanso que nunca vem. A culpa se enrola no meu pescoço como uma corda, lembrando das promessas não cumpridas, dos "eu te amo" não ditos, das oportunidades esfareladas por entre os dedos. Finjo ser um pilar, mas sou um disparate de dúvidas e esgotamento. A vida passou num piscar, e a única coisa que sobrou é essa sensação gritante de que deixei algo vital pelo caminho. Eu me escondo atrás de uma fachada polida, mas por dentro é só um caos silencioso. Anseio por um alívio que parece um sonho distante, e me pergunto se algum dia vou encontrar o caminho de volta para mim mesmo.