Dizem que a vida ensina, mas ninguém avisa que a professora é uma carrasca. Aprendi a endurecer, não por escolha, mas por necessidade. Cresci com a certeza de que o tempo é um luxo para poucos — e eu nunca tive esse privilégio. Entre um emprego miserável e outro, encontrei minha rotina de acordar cedo e voltar tarde, sempre no piloto automático. As mesmas expressões sem emoção, os mesmos trajetos sufocados por anonimosidade. Emocionalmente, sou um exilado dentro de minha própria pele. Contatos humanos se tornaram transações imediatas, sem investimento ou retorno. As amizades se dissolveram na poeira da conveniência e o amor, se é que já existiu, foi engolido pelo cinismo. Eu continuo vagando, corpo presente, mas espírito distante, como um espectador silencioso da minha própria existência. As aulas da vida me ensinaram mais do que qualquer sala de aula. Aprendi que o silêncio é, muitas vezes, mais eloquente que as palavras e que a dor tem um jeito peculiar de se tornar companheira. Fui obrigado a crescer sem o amparo de um manual, no improviso, com o peso das responsabilidades muito maior que qualquer futuro promissor poderia prometer. E, no fundo, a única coisa que continua é essa angústia surda, constantemente me lembrando que, de alguma forma, eu ainda existo.