não sei nem por onde começo. parece que carrego o mundo inteiro nas costas e o chão que piso é feito de areia movediça. dia após dia, acordo só pra enfrentar mais do mesmo. trabalho que já não inspira, só suga. vivo pra pagar conta, sem tempo pra sonhar. é foda. dizem que a juventude é a melhor época da vida. que piada. sou só mais um número, uma engrenagem em uma máquina que nunca pára de moer. e o desejo, ah, esse maldito desejo, tá sempre ali, cutucando, lembrando que eu queria mais. queria criar, queria viver, mas sou educado demais pra largar tudo. e covarde o bastante pra não tentar. falam pra ser grato, mas agradeço pelo quê? pelo pouquinho que ainda me resta? pelas migalhas de tempo e sanidade que não sei até quando vou ter? não sei. só sinto essa revolta acumulada, esse grito preso na garganta. e eu queria gritar, mas quem escuta? às vezes, acho que o erro foi ter sonhado com algo melhor. talvez a vida seja isso mesmo, essa eterna insatisfação. ou talvez eu que seja errado de querer mais, de não saber aceitar o que me dão. mas porra, será que é pedir muito querer viver e não só sobreviver? queria ter uma resposta, mas o cansaço é tanto que até isso me escapa.