a noite cai, e eu caio junto com ela, num poço sem fundo de pensamentos que se embaralham como fios de um fone esquecido no bolso. sou aquela peça do quebra-cabeça que não se encaixa em lugar nenhum. a solidão me abraça como um cobertor pesado, e ao mesmo tempo... um gelo. um frio que só quem sente sabe. o trabalho? uma roda gigante que nunca para. gira, gira, mas nunca sai do lugar. acordo, vou. volto. repito. não há brilho, só o eco da rotina que me engole num ciclo sem fim. a cidade, ah, a cidade. parada no tempo como um velho relógio enferrujado, insistindo em marcar as horas que ninguém vê passar. ruas vazias, almas cheias de nada, olhos cegos pra beleza escondida atrás da ferrugem. e amar? tão doce na teoria, mas tão medo na prática. carência grita, mas sempre me pego fugindo do que importa. apego? impossível, parece longe, fora de alcance, feito estrela num céu nublado. o que restou pra mim foi esse cinza, essa cor sem cor. uma vida que troquei pela promessa de algo que nunca veio. eu sou educado demais pra aceitar migalhas, mas quem sou eu pra exigir o banquete? aqui, onde tudo é sempre igual, onde desejos mofam nas prateleiras da alma. aqui... sou só eu, meu desespero mudo e o eco de meus próprios passos.