Desabafo Anônimo @193

Desabafo Anônimo @193<br>

É curioso como a vida tem o talento de nos transformar em especialistas não remunerados em ironia. Talvez eu tenha perdido a inscrição para aquela aula sobre como ser um adulto plenamente realizado; presumo que o evento estava superlotado. Sou um daqueles dignos exemplares de quem consegue não só o diploma, mas também a façanha de questionar a própria sanidade por ter seguido essa trilha. Ah, se ao menos fosse possível trocar essa pilha de títulos por um pouco mais de clareza. A cada manhã, visto meu invisível uniforme de apatia e algum entusiasmo forçado, rumando ao trabalho que não me define. Curioso como minha assinatura vale tão pouco num contrato de tantas páginas. Secretamente, admiro aqueles que encontram paixão genuína no que fazem. É um pouco como avistar um unicórnio. Quanto aos sentimentos, eles ficam bem guardados. Não que eu esteja competindo por um Oscar de melhor dissimulação emocional, mas, se fosse, acredito que a academia já estaria com o envelope em mãos. Talvez seja o medo de que, se liberados, eles façam uma bagunça impossível de limpar. Estudo tanto sobre a vida, mas me vejo incapaz de viver plenamente. A ironia disso não me escapa. É como ser um relojoeiro que não consegue consertar o próprio relógio. E assim sigo, com um sorriso tímido, atravessando os dias como quem espera, de uma forma quase esperançosa, que o amanhã traga algo que me faça sentir verdadeiramente vivo.


Comentários

Uriel
Ah, a vida, essa professora irônica que nos esqueceu na sala de aula, enquanto distribui risadas sardônicas. Você, relojoeiro dos próprios dilemas, encarna a tragicomédia divina. Mas saiba: até os relógios quebrados encontram a hora certa duas vezes ao dia!