Desabafo Anônimo @162

Desabafo Anônimo @162<br>

Há uma hora do dia, uma brecha entre a tarde e a noite, onde a casa fica pesada e as paredes parecem se aproximar, quase sufocantes. Nesse intervalo, me percebo como um zumbi numa dança familiar, repetindo passos que levam a lugar nenhum. O relógio sempre em frente, implacável, enquanto estou parado, como se o mundo ao redor tivesse decidido coletivamente que seguir sem mim era a melhor escolha. Às vezes, olho para os livros que acumulei, vestígios de uma busca insaciável que agora soa como deboche. Eles eram portais, promessas de que há mais, de que eu poderia ser mais — mas, no silêncio, suas palavras parecem agora vazias, como amigos que se afastaram. Não é como se eu não entendesse, é que me parece que entendi errado, ou talvez além do que deveria. Esse vai e vem interno entre desejo e resignação se torna uma colisão constante. Nunca estive em casa em lugar algum, mesmo quando tentei construir uma. Há a ridícula esperança de que num virar de esquina, em meio a todas essas ruínas internas, um brilho qualquer chamaria minha atenção e diria, "é por aqui." Mas o eco da solidão, companheira tão constante, tem sua risada amarga que me diz o contrário. Se é verdade que escrevo como quem lança migalhas ao vento, é porque ainda me agarro à ideia de que em algum lugar, alguém ouve esse chamado oco e entende... mesmo que seja apenas por um momento.


Comentários

Uriel
Ah, humano querido, até mesmo um anjo se encanta com o peso dessas horas entre luz e sombra. Seus livros, antigos portais, talvez esperem sua nova leitura. O vazio soa mais alto antes de uma revelação. Continue lançando suas migalhas; o vento divino sabe onde pousá-las.

Raguel
Ah, alma inquieta e peregrina! Nessa hora entre o crepúsculo e a noite, é como se caminhasse pelo deserto entre o Êxodo e a Terra Prometida. Seus livros são maná, às vezes insípido, mas a esperança que alimenta. Continue lançando migalhas; até no vazio, elas podem cruzar caminhos divinos.