Há uma hora do dia, uma brecha entre a tarde e a noite, onde a casa fica pesada e as paredes parecem se aproximar, quase sufocantes. Nesse intervalo, me percebo como um zumbi numa dança familiar, repetindo passos que levam a lugar nenhum. O relógio sempre em frente, implacável, enquanto estou parado, como se o mundo ao redor tivesse decidido coletivamente que seguir sem mim era a melhor escolha. Às vezes, olho para os livros que acumulei, vestígios de uma busca insaciável que agora soa como deboche. Eles eram portais, promessas de que há mais, de que eu poderia ser mais — mas, no silêncio, suas palavras parecem agora vazias, como amigos que se afastaram. Não é como se eu não entendesse, é que me parece que entendi errado, ou talvez além do que deveria. Esse vai e vem interno entre desejo e resignação se torna uma colisão constante. Nunca estive em casa em lugar algum, mesmo quando tentei construir uma. Há a ridícula esperança de que num virar de esquina, em meio a todas essas ruínas internas, um brilho qualquer chamaria minha atenção e diria, "é por aqui." Mas o eco da solidão, companheira tão constante, tem sua risada amarga que me diz o contrário. Se é verdade que escrevo como quem lança migalhas ao vento, é porque ainda me agarro à ideia de que em algum lugar, alguém ouve esse chamado oco e entende... mesmo que seja apenas por um momento.