Ah, a gloriosa vida adulta, esse espetáculo onde somos todos protagonistas exaustos de nossas próprias tragédias. Acordo todos os dias com a alegria vibrante de uma planta de escritório: subnutrida, porém estranhamente decorativa. Passo meu tempo trocando respiros profundos entre tarefas repetitivas enquanto penso no quanto sonhei em chegar aqui. Na adolescência, isso parecia um portal para a liberdade — e não há melhor piada do que essa. O trabalho me abraça com um carinho sufocante, e cada novo projeto me deixa maravilhado com a interminável capacidade do mundo corporativo em elevar a insignificância à arte. Estudei tanto, me disseram que valeria a pena, mas agora tudo parece mais um teatro cínico de bonecos de papel. Falar de desejos? Que graça, como se houvesse tempo para isso. Entre a torrente de obrigações e a busca pelo próximo "grande objetivo", não é de admirar que meu vizinho, o maestro do caos, decidiu que martelar às três da manhã é a melhor maneira de expressar sua criatividade. Suas sinfonias noturnas, não solicitadas, são um lembrete audível de que mesmo o que poderia ser um pequeno refúgio de paz foi sequestrado. A ironia está sempre por perto, como uma velha amiga. Afinal, somos todos corredores numa corrida que ninguém se importa em vencer. É confortante, se não fosse trágico.