Já faz algum tempo que carrego essa sensação de não pertencimento, um eco constante dizendo que não estou onde deveria estar, mas sem nunca revelar onde esse lugar seria. É um descompasso entre o que imaginei e o que é. A cada dia, o choque entre o que espero e o que recebo me desgasta um pouco mais. O emprego que pago as contas parece só sugar o pouco que resta da minha energia. Já não há desafio ou novidade — apenas uma rotina que me engole aos poucos, enquanto sinto que partes de mim se perdem nesse processo. Eu sei que sou capaz de mais, mas é como se algo invisível sempre colocasse um freio nas minhas tentativas de mudança. A solidão é uma velha companheira, mas a ideia de me abrir para alguém é aterrorizante. Criar laços significa também criar chances de se machucar, e já não tenho tanta fé na resistência das minhas cicatrizes. É uma dança delicada entre querer e temer. Há uma faísca de esperança, quase apagada, sim, mas ainda uma faísca. Ela pisca ocasionalmente, como uma lembrança teimosa de que talvez, em algum lugar, exista uma saída desse labirinto. Tento mantê-la viva, mesmo quando tudo em volta parece sussurrar que é inútil. Enquanto puder, vou seguir em frente, esperando pelo dia em que essa fagulha se transforme numa labareda capaz de iluminar o caminho.