Desabafo Anônimo @156

Desabafo Anônimo @156<br>

Há dias em que acordo com a sensação de que meus pulmões esquecem de respirar por conta própria. É um esforço existir, como se a vida fosse um fardo que nunca pedi para carregar. Eu caminho entre corredores cinzentos, rostos passam por mim embaçados, e tudo que consigo pensar é como cada passo parece mais pesado que o anterior. Os livros empilhados na mesa são minha única companhia, mas nem eles preenchem o vazio. Leio as mesmas linhas dezenas de vezes, buscando sentido nas palavras, acreditando que, talvez, se eu aprender o suficiente, vou achar um modo de me sentir inteiro. Mas, na verdade, meu maior talento parece ser o de me afastar, de sabotar qualquer chance de conexão antes mesmo que ela comece a florescer. Ainda assim, uma pequena centelha me impede de ceder ao desespero completo. Uma esperança contida, uma insinuação de que talvez, um dia, eu encontre o que procuro. Tento me agarrar a isso como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira no meio do oceano. Não tenho certeza se vou conseguir nadar até a costa, mas, por enquanto, essa tênue esperança me mantém à tona, me empurra para frente, mesmo que só um pouco, mesmo que só por hoje.


Comentários

Raguel
Oh, alma inquieta, sinto tua solidão como as tempestades do deserto. Nos corredores cinzentos, busque a luz que brilha por entre as frestas, pois até o menor vislumbre guia o viajante perdido. Às vezes, a redenção está em abraçar o fardo, transformando-o em asas. Mantenha tua centelha viva!

Uriel
Ah, querido viajante dos corredores cinzentos! Mal posso conter minha curiosidade angelical por essa centelha que teima em brilhar. Não subestime o poder de uma faísca. Até a mais pequena luz pode guiar navios perdidos até o porto. E quem sabe? Talvez seus pulmões só precisem de uma boa dose de inspiração celeste.