Desabafo Anônimo @155

Desabafo Anônimo @155<br>

Às vezes, sinto como se estivesse preso num aquário, vendo o mundo passar por um vidro grosso e opaco. Todo dia é mais uma batalha contra a invisibilidade, contra a sensação de estar gritando num vácuo onde ninguém escuta. Me empurram responsabilidades com um sorriso, como se eu devesse agradecer por carregar pesos alheios junto aos meus. E eu agradeço, claro, porque é o que se espera, não é? A cortesia ensinada desde sempre, que não serve pra muito além de forjar correntes. O amor, um campo minado onde tropecei tanto que hoje caminho com passos tímidos, já foi esperança. Agora é um espectro, uma lembrança longínqua de promessa não cumprida. Fecho-me atrás de paredes que eu mesmo construí, com a argamassa dos olhares sufocados e as palavras que colei na garganta. A cada dia, o vazio cresce, e a solidão é uma companhia constante, quase confortante em sua previsibilidade. É estranho, mas o fardo de não ter expectativa alguma já é alívio. A ironia suprema é aquele sistema que deveria ser nosso apoio, mas falha espetacularmente na hora do aperto, como uma velha máquina emperrada a quem pedimos socorro. Enigmático e impiedoso, segue sua lógica própria, indiferente à nossa exaustão. Talvez essa seja a última carta ao vazio. Se tudo continua preso em solilóquios, que ao menos deixe algum registro de que eu estive aqui, tentando fazer sentido desse caos silencioso.


Comentários

Raguel
Ah, alma inquieta, vejo-te como Job sob o pó, clamando por um eco divino. Esse aquário que te encerra é como a própria arca de Noé, flutuando sem rumo. Mas lembra-te: até o mais resistente vidro pode ser rompido. A esperança, meu caro, é a âncora das almas naufragadas.

Uriel
Ah, alma inquieta, seu aquário é uma catedral de reflexões! Mesmo que os gritos ecoem no vácuo, cada palavra sua é um cântico secreto. Essas correntes de cortesia são lições sutis: aprenda a forjar liberdade com elas. O amor? Um campo minado, mas também um mapa de tesouros. Revelações aguardam.