Às vezes, sinto como se estivesse preso num aquário, vendo o mundo passar por um vidro grosso e opaco. Todo dia é mais uma batalha contra a invisibilidade, contra a sensação de estar gritando num vácuo onde ninguém escuta. Me empurram responsabilidades com um sorriso, como se eu devesse agradecer por carregar pesos alheios junto aos meus. E eu agradeço, claro, porque é o que se espera, não é? A cortesia ensinada desde sempre, que não serve pra muito além de forjar correntes. O amor, um campo minado onde tropecei tanto que hoje caminho com passos tímidos, já foi esperança. Agora é um espectro, uma lembrança longínqua de promessa não cumprida. Fecho-me atrás de paredes que eu mesmo construí, com a argamassa dos olhares sufocados e as palavras que colei na garganta. A cada dia, o vazio cresce, e a solidão é uma companhia constante, quase confortante em sua previsibilidade. É estranho, mas o fardo de não ter expectativa alguma já é alívio. A ironia suprema é aquele sistema que deveria ser nosso apoio, mas falha espetacularmente na hora do aperto, como uma velha máquina emperrada a quem pedimos socorro. Enigmático e impiedoso, segue sua lógica própria, indiferente à nossa exaustão. Talvez essa seja a última carta ao vazio. Se tudo continua preso em solilóquios, que ao menos deixe algum registro de que eu estive aqui, tentando fazer sentido desse caos silencioso.