Às vezes, sinto que minha mente é como uma gaveta abarrotada, repleta de papéis amarelados e cartas sem destinatário. Cada pensamento um rabisco apressado; cada dia um lembrete esquecido de sonhos e promessas que fiz a mim mesmo. A juventude não é tão leve quanto prometeram; para cada riso, uma cobrança. Trabalho que chega e desaparece como um fantasma, sem aviso, instável como a vontade de criar. Freelancer é sinônimo de liberdade e prisão — o mistério sufocante do que virá, ou não virá, amanhã. Esconder os sentimentos é uma arte que aprendi jovem, máscara colada com um sorriso bem ensaiado. Às vezes, tenho medo de ter colado forte demais. Tenho tanto a dizer, mas as palavras se prendem, timidamente, ao fundo da garganta, como se temessem o mundo lá fora. Estudei tanto. Uma montanha de livros, de autores que admiro e condeno; um mar de teorias que agora observo com olhar crítico e amargo. Me disseram que esse conhecimento me libertaria, mas hoje me sinto mais preso, refém da análise incessante, da crítica que não me poupa de nada. Escrever é meu refúgio. A caneta desliza sobre o papel como se desamarrasse fios apertados em meu peito. Aqui, entre as linhas, sou livre para ser, sem máscaras, sem cobranças. Desabafo que não pede aplauso, apenas me lembra de que ainda estou aqui, inteiro, mesmo quando tudo parece tão fragmentado.