Acordo todo dia com um peso no peito que nunca sei exatamente de onde vem, mas ele está sempre lá. Acordo e visto a carapuça de quem "vai dar certo", mas quem se importa? Já faz tempo que a esperança virou só um eco. Dou meu sangue pra um trabalho que engole meu tempo, mas mal enche meu prato. A ironia de ser qualificado e ainda assim descartável me arranha a garganta cada vez que preciso sorrir e dizer obrigada por nada. A fila? Bom, essa fila é um mistério. As mesmas caras sempre à frente, como se o mundo só girasse ao redor delas enquanto eu finjo não estar esperando um milagre. É como correr numa esteira, sem sair do lugar, mas sempre cansado. A culpa também está lá. A culpa mal resolvida de não ter feito mais, de talvez ter escolhido errado, de não ser o que esperavam. Às vezes, a vergonha vem bater à porta, lembrando que não sou mais novo e o tempo não perdoa. Tantos sonhos que ficaram num ontem que nunca chega. No fundo, é isso. Sento e espero, grito em silêncio, enquanto a fila infinita parece ser o único destino. Tudo isso enquanto desejo alguma fagulha de coragem pra tentar outra coisa, qualquer coisa, desde que não seja apenas isso.