Sinto um cansaço que transcende o corpo, uma exaustão da alma. Vivo numa pausa, num estado de espera interminável, como um livro cuja próxima página nunca parece chegar. Os dias escorrem entre os dedos e levam consigo pedaços de uma vida que nunca vivi completamente, como se meu tempo de uso já estivesse decidido antes mesmo de eu tomar consciência dele. Eu caminho pelas ruas, olho rostos desconhecidos, e imagino histórias que não me pertencem. Há uma conexão que nunca se forma, um fio que constantemente se rompe. Apego e distância se alternam como ondas, impiedosas, incapazes de coexistir no mesmo espaço. Medo de me perder nos outros, mas também, uma vontade desesperada de encontrar um porto seguro — ainda que efêmero. A crítica me torna observador incansável das nuances ao meu redor. Cada detalhe, cada falha, cada sonho alheio interrompido é uma lembrança do que deixei de ser, do que não aconteceu. Estudei, observei, questionei o mundo, e ainda assim, o mundo insiste em permanecer incerto, distante. O conhecimento que carrego parece um fardo mais do que um refúgio. Palavras me falham, mas as escrevo mesmo assim, como se uma última tentativa de tradução desse vazio silencioso pudesse trazer algum alívio. Vivo uma melodia sem ritmo, esperando pela nota que ressoe verdadeira, até que o silêncio, enfim, me acolha.