Cansado. Como uma folha que insiste em cair antes do outono, eu sinto o peso de ter vivido tanta coisa antes do tempo. Não é só o desemprego, é o vazio ensurdecedor das horas que se arrastam sem direção. Talvez eu tenha amadurecido cedo demais, ou talvez o mundo tenha me exigido isso sem pedir permissão. Lembro de quando sonhava com um futuro, mas a cada dia que passa, ele parece mais um conceito abstrato, uma piada contada por um comediante sem graça. Acordo e me vejo rodeado por pessoas que só sabem sussurrar elogios ao vento, esperando que as migalhas de aprovação do alto escalão caiam em suas mãos. Os aduladores de plantão, sempre prontos com um sorriso que não lhes pertence, enfeitam seus discursos com promessas vazias. Tolos. Eu sei que não sou dos mais otimistas, mas custa acreditar em algo real? Custa ser verdadeiramente honesto, mesmo quando o mundo está desmoronando? A mente já não descansa. Sou inteligente, dizem, mas isso só parece pesar mais na balança da exaustão. Desejos e conflitos internos dançam sem parar, uma dança que só eu assisto, um espetáculo sem espectadores. Não é a resignação que me define, mas a revolta acumulada, que lateja no fundo da minha alma. Mesmo assim escrevo, talvez pela última vez, um grito sufocado em busca de alívio.