Houve um tempo em que achei que viver era simplesmente estar aqui, respirando. Agora, parece que estou apenas flutuando, preso entre o mundo e minhas próprias sombras. As responsabilidades silenciosas, aquelas que ninguém vê, pesam nos meus ombros como se fossem feitas de chumbo. É curioso como posso me sentir tão exausto sem ter corrido maratonas, tão cheio sem ter acumulado nada que reluza. O amor, que uma vez inebriou e deu sentido aos dias, agora é uma memória distante. Fechei-me para ele, construí muros altos demais para que pudesse entrar de novo. A voz constante, aquela pessoa que sempre tem uma opinião, um comentário, um julgamento, preenche o ar ao meu redor. É um eco que não se cala, sufocante como uma manta roubando o ar. Chamo de "Sabiá", pois seu canto é incessante, mas carece de melodia. Eu, que aprendi a ser educado, aceno e sorrio, mas minhas orelhas clamam por silêncio. A vida, com suas opções limitadas, ensina-me que há luxo em querer mais. Mas aqui estou, escrevendo como se isso fosse minha chance de respirar um pouco mais fundo. Talvez escrever seja meu grito silencioso, minha forma de voltar a sentir, ou pelo menos não me esquecer de tentar. É o alívio que apenas as palavras podem trazer. Já que falar nunca pareceu suficiente.