Acordo todo dia com uma sensação de estar vivendo a mesma droga de dia, repetidamente, como um disco arranhado. Olho no espelho e mal reconheço aquele rosto cansado que me encara, os olhos que já viram tanto, mas que ultimamente não têm visto nada além de um vácuo sem fim. O brilho que um dia iluminou minhas ambições, apagou-se, e agora só consigo focar no cinza que consome as minhas horas. Trabalho? Um eco distante do que um dia pensei ser a razão da minha existência. Cada tarefa parece só sugar minha alma um pouco mais, deixando um casulo vazio onde antes havia paixão e propósito. Engulo o desespero, visto a máscara do "tudo bem", enquanto grito por dentro. É um teatro cínico do qual sou o protagonista e o público. E me pergunto: qual a maldita moral dessa peça? Vivo cercado por expectativas, por uma voz incessante que diz que preciso de um sentido, um norte. Mas e quando o norte parece mais uma parede de concreto, intransponível e fria? Sinto-me como uma máquina programada, sem memória, sem futuro, apenas do presente, que mais parece um pesadelo sem fim. Eu queria só apertar o botão de reset, reencontrar a faísca, ou pelo menos escapar dessa prisão que criei para mim mesmo. Quem sabe, um dia, descubra a saída desse labirinto opressor. Por enquanto, sigo, sobrevivendo.