Sento na cadeira e observo as paredes, como se elas fossem mudar. Não mudam. Nem elas, nem eu. A sensação de perder o fôlego, sem razão aparente, se tornou rotina. Olho em volta e vejo rostos que não conheço. Conversas vazias, trocas de palavras que não fazem sentido. Queria gritar, mas até a vontade de expressar qualquer coisa esvaziou. O trabalho, que deveria ser ponte, virou um beco. Um beco com cheiro de mofo e café requentado. As horas se arrastam, e cada dia parece uma reprise do anterior, mas sem o alívio da previsibilidade. Os amigos, que já foram âncoras, agora são fantasmas de um passado que não consigo reviver. Mensagens não respondidas, convites recusados, e aqui estou, uma ilha cercada de rostos, mas ainda uma ilha. A distância foi se criando em silêncios e desculpas esfarrapadas, até o ponto em que não sei mais como atravessar o abismo. O papel na gaveta lembra um quase. Um quase título, um quase caminho, um quase sonho. Desistir é um verbo que pesa, mas faz parte de mim como uma cicatriz que já se acostumou a não doer. A vida, vista de fora, segue sua marcha cansada, enquanto eu tento escapar do redemoinho interno que me puxa para baixo. E, apesar de tudo, aqui estou. Existindo. Apenas.