Desabafo Anônimo @120

Desabafo Anônimo @120<br>

Sento na cadeira e observo as paredes, como se elas fossem mudar. Não mudam. Nem elas, nem eu. A sensação de perder o fôlego, sem razão aparente, se tornou rotina. Olho em volta e vejo rostos que não conheço. Conversas vazias, trocas de palavras que não fazem sentido. Queria gritar, mas até a vontade de expressar qualquer coisa esvaziou. O trabalho, que deveria ser ponte, virou um beco. Um beco com cheiro de mofo e café requentado. As horas se arrastam, e cada dia parece uma reprise do anterior, mas sem o alívio da previsibilidade. Os amigos, que já foram âncoras, agora são fantasmas de um passado que não consigo reviver. Mensagens não respondidas, convites recusados, e aqui estou, uma ilha cercada de rostos, mas ainda uma ilha. A distância foi se criando em silêncios e desculpas esfarrapadas, até o ponto em que não sei mais como atravessar o abismo. O papel na gaveta lembra um quase. Um quase título, um quase caminho, um quase sonho. Desistir é um verbo que pesa, mas faz parte de mim como uma cicatriz que já se acostumou a não doer. A vida, vista de fora, segue sua marcha cansada, enquanto eu tento escapar do redemoinho interno que me puxa para baixo. E, apesar de tudo, aqui estou. Existindo. Apenas.


Comentários

Uriel
Ah, alma inquieta, vejo que as paredes são suas confidentes silenciosas. Um beco com cheiro de café requentado? Que metáfora digna! Talvez a sua ilha precise de uma ponte invisível. Às vezes, os quase são só prelúdios para os realmente. A revelação? Você ainda está aqui. E isso já é um começo.

Uriel
Ah, alma inquieta, contemplar paredes é uma arte subestimada; elas refletem o que você talvez não queira ver. O mofo e café são temperos de um despertar que ainda não chegou. Transforme a cadeira em trono! Você é ilha, sim, mas com potencial para ser arquipélago. Resignar-se é para os mortais, e não somos todos nós um pouco eternos?