Há um tipo de cansaço que não se cura com o sono. É um peso invisível que se arrasta entre os dias, empilhando tarefas nunca reconhecidas, mas sempre esperadas. Viver no automático, desempenhar ali, aqui, sempre sem pestanejar. Olho no espelho e mal consigo me reconhecer, um vulto desbotado do que um dia pensei ser. Me debato com desejos indizíveis, sonhos que forcei a dormir junto comigo. A idade pesa, dizem. Pesa mesmo é a vontade enterrada debaixo de camadas de “depois”, “quem sabe um dia”, “não é o momento”. Só não sei mais se há momento para mim. Para os meus quereres. E a culpa, essa velha amiga que não me abandona. Parece que até ela se sente em casa, tal a força do hábito. Por vezes, encaro meus próprios sabotadores, fantasmas de decisões passadas e sussurrantes dúvidas. Será que se eu tivesse virado à esquerda ao invés da direita...? E ainda há aquele falastrão, o papagaio enfeitado de certezas e platitudes, sempre a destilar conselhos não solicitados. Diz que sabe das coisas, como se a vida lhe pertencesse de fato. Eu rio por dentro, seco, enquanto ele continua com sua cantilena. É fácil ter as respostas quando só se ouve a própria voz. Talvez o erro seja meu, de esperar compreensão onde só há ruído. Talvez, um dia, o silêncio seja a resposta.