Há um peso nas costas que não se desgruda, uma lembrança constante de que era para ter sido diferente. Alguns dizem que a vida é um jogo de escolhas. Eu também achava isso, até perceber que, muitas vezes, a única escolha é não ter escolha alguma. Amadureci cedo, cedo demais. Enquanto meus amigos brincavam, eu cuidava. Enquanto eles sonhavam, eu sobrevivia. A exaustão é uma visita constante, uma sombra que me observa estudar, mesmo quando a mente grita por descanso. Cada página folheada é um lembrete dos erros, das oportunidades largadas ao vento, das mãos que se soltaram das minhas. E o desejo... ah, o desejo. Está sempre lá, esse fantasma que nunca se cala. Desejo por algo mais, diferente, mas estou constantemente me boicotando, sabotando os próprios passos. O abandono deixou cicatrizes. Aprendi a não me apegar, a não esperar, a não acreditar. E a culpa, sempre a culpa. É como uma névoa densa, difícil de dissipar. Culpo-me por coisas que não pude mudar, por não ter sido mais forte, mais rápido, mais qualquer coisa que pudesse ter feito uma diferença. Estou cansado de chorar, de implorar por soluções que nunca vêm. O que resta é essa crueza silenciosa, este impulso de continuar. Não é esperança, é hábito. E talvez, quem sabe, um dia eu possa me perdoar por ter sido humano demais.