Crescer rápido demais é um fardo que pesa como chumbo. Tive que aprender a me virar, a ser o que esperavam de mim antes mesmo que eu entendesse o que eu queria ser. Ser freelancer pareceu uma saída libertadora, a promessa de poder guiar meu próprio barco. Mas, ao invés de um oceano de oportunidades, encontrei um mar revolto, sem costas à vista ou calmaria para descansar. Os dias se misturam, uma sequência interminável de lutar para estar sempre no próximo projeto, na próxima ideia que, por um breve momento, parece que vai preencher o vazio ou ao menos pagar as contas. É instável, como viver em uma tempestade permanente. E eu, num bote furado, remando com a força que não tenho mais. As paredes que construí ao redor dos meus sentimentos são mais altas a cada dia. O sorriso no rosto virou máscara, a voz constante e segura um escudo. Ninguém vê as rachaduras, os gritos contidos. Talvez eu goste que seja assim, talvez seja medo de que, se alguém visse a verdade, a estrutura inteira ruísse. A inteligência, essa faca de dois gumes, que me empurra para frente com ideias e perspectivas, agora parece um peso, uma incessante cobrança por mais. Mas eu estou cansado. Resignado. Talvez fosse bom baixar as velas, deixar o vento me levar. Quem sabe, dessa forma, encontre alguma paz.