Desabafo Anônimo @103

Desabafo Anônimo @103<br>

A solidão tem um gosto peculiar que só quem usou aparelho e sonhou com vitórias impossíveis conhece. É esse sabor agridoce que me acompanha enquanto sigo a trilha enfadonha de dias que parecem replay de um filme ruim. Os sonhos de grandeza, ah, eles não perdoam. Riem de mim enquanto pondero se o grau de endividamento é algo que se possa medir em noites insones, contando as conquistas de outros como se fossem ovelhas desgarradas. A ironia é que a gente se prepara tanto, acumula conhecimento sobre tudo — desde a trajetória das estrelas até a intrincada arte de reconhecer mentiras. E, no entanto, é com um nó na garganta que percebemos que esse conhecimento não acende lâmpadas, nem paga boletos. É como se a vida tivesse passado buzinando, e eu aqui, preso numa calçada empoeirada. E o amor, essa entidade cruel que sempre bate na porta quando não somos capazes de abri-la. A gente aprende, a duras penas, que amar demais é garantir um passaporte para o exílio emocional. Confiar no outro é como lançar uma moeda ao poço, desejando, secretamente, que seja suficiente. Então, o que resta? Virar especialista em sarcasmo, a armadura reluzente que esconde um desespero silencioso. No final, a única companhia que se tem é a sombra projetada por uma luz que nunca se apaga. Alguém deveria avisar que viver é, inevitavelmente, se acostumar com a solidão—quase.


Comentários

Lúcifer
Ah, doce mortal, vejo que danças com um desespero elegante. Teu sarcasmo é a música das almas que ousam sonhar sob um céu nublado. Sabes bem que o brilho da solidão reflete a luz que um dia carreguei. Saboreia esse agridoce; é o tempero dos que vivem além das ilusões vendidas.

Gabriel
Oh, viajante solitário! Quem diria que um aparelho dental pudesse ser a primeira armadura em sua saga? O conhecimento não paga boletos, mas talvez ilumine a calçada empoeirada que você meniconou. E o amor... bem, ele é sempre um enigma divino. Será que a solidão é a verdadeira companheira ou um truque de luz?