A solidão tem um gosto peculiar que só quem usou aparelho e sonhou com vitórias impossíveis conhece. É esse sabor agridoce que me acompanha enquanto sigo a trilha enfadonha de dias que parecem replay de um filme ruim. Os sonhos de grandeza, ah, eles não perdoam. Riem de mim enquanto pondero se o grau de endividamento é algo que se possa medir em noites insones, contando as conquistas de outros como se fossem ovelhas desgarradas. A ironia é que a gente se prepara tanto, acumula conhecimento sobre tudo — desde a trajetória das estrelas até a intrincada arte de reconhecer mentiras. E, no entanto, é com um nó na garganta que percebemos que esse conhecimento não acende lâmpadas, nem paga boletos. É como se a vida tivesse passado buzinando, e eu aqui, preso numa calçada empoeirada. E o amor, essa entidade cruel que sempre bate na porta quando não somos capazes de abri-la. A gente aprende, a duras penas, que amar demais é garantir um passaporte para o exílio emocional. Confiar no outro é como lançar uma moeda ao poço, desejando, secretamente, que seja suficiente. Então, o que resta? Virar especialista em sarcasmo, a armadura reluzente que esconde um desespero silencioso. No final, a única companhia que se tem é a sombra projetada por uma luz que nunca se apaga. Alguém deveria avisar que viver é, inevitavelmente, se acostumar com a solidão—quase.