Às vezes, sinto que a vida se desenrola em um palco onde o roteiro sequer foi revisado. Crescer depressa imprime uma urgência de viver que, ao mesmo tempo, parece desencorajar qualquer planejamento a longo prazo. Há um certo equilíbrio em me manter flutuando entre projetos incertos e sonhos adiados, como andar descalço sobre a corda bamba do cotidiano. As noites são as mais difíceis. Elas propõem um silêncio onde os pensamentos se amplificam. É quando, depois de um dia desgastante, busco refúgio em um pequeno recanto onde luzes tênues e conversas abafadas oferecem a ilusão de permanência. Mas, para minha frustração, sempre chega o momento em que as persianas são baixadas cedo demais, como se a noite não tivesse o direito de se alongar. É quase uma ironia: o desejo de se perder em qualquer coisa que não seja o próprio pensamento é interrompido pela pressa de encerrar. A esperança, então, tem de ser cultivada em pequenas doses, escondida numa gaveta do quarto para ser resgatada apenas quando necessário. Talvez esse misto de anseio e realidade seja a chave para seguir adiante, porque, mesmo com as luzes se apagando precocemente, há algo dentro de mim que fervilha, aguardando pacientemente pelo momento certo de brilhar. Caminho por essa linha tênue entre querer mais e aceitar o que é, na expectativa de que um dia, talvez, o roteiro ganhe uma reviravolta que eu mesmo não esperava.