A noite se estende como uma velha canção que toca baixinho, soando como um eco daquilo que nunca se concretizou em mim. Cresci cedo demais, me dizem, mas essa maturidade precoce não é bem um dom; é mais uma cicatriz mal curada. Existem partes de mim espalhadas pelo chão, pedaços que fui deixando para trás ao longo dos anos, tentando cumprir papéis que não escolhi. É como se a vida me tivesse designado ao palco errado, com um roteiro que nunca ensaiei. O fado da invisibilidade pesa. Sou a sombra que passa desapercebida, o guardião silencioso de um mundo que não cessa de cobrar. Não há descanso para quem não aprendeu a pedir ajuda; admito, sou meu pior sabotador. Na tentativa de proteger, construí muros que agora me aprisionam. E assim, a solidão se tornou uma velha conhecida, uma companhia que não escolhi, mas que nunca deixou meu lado. Quando, finalmente, decido me permitir um instante de esquecimento, a taverna dos sonhos fecha cedo demais. É o único refúgio onde a realidade não me encontra, mas mesmo ali sou despejado antes de qualquer alívio. Volto a me arrastar, sem destino, pela madrugada vazia. A verdade é que nunca souberam a hora certa de fechar as portas; sempre antes que eu pudesse sentir que pertencia a algum lugar.